Os Olhos de Maria

O diagnóstico precoce, e o avanço esfomeado da doença, não desvaneceram a minha determinação e a alegria de viver. Passei dois anos enxergando manchas esbranquiçadas, enquanto seguia titubeando pelas paredes e confiante na lista de espera.  A nebulosidade do meu olhar enxergava as cores do arco-íris impressas nas recordações da mente.

Quando abri os olhos, vi um mundo desconhecido. Agora só tenho olhares para a negritude da sua alma.

 

O doutorzinho disse que a lacrimação era normal. A normalidade se esvaiu ao constatar que a vida passou a ser ausente de cores. Algo deu errado. Voltei para casa munida de um arsenal de colírios, recomendações assépticas e a promessa de que voltaria a enxergar, outra vez, o mundo colorido.

Passado um mês do transplante, continuava entregue à prostração e a vontade de chorar. Passei a sonhar com uma mulher desconhecida, era sempre a mesma cena, ela, em súplicas, chamando por alguém. Noite passada, ouvi o nome de Maria.

Retornei ao médico. Ele jogou a toalha. Coçou os parcos fios de cabelo, franziu o cenho. Cogitou do meu retorno à lista de espera. Falou em rejeição. Algo dentro de mim rejeitava essa possibilidade.

Peguei um táxi na saída do consultório, desci do carro irritada com a ventania. O vento do outono resgatou-me dos pensamentos maus. Já não me conhecia. O redemoinho de folhas na calçada avançou em labaredas sobre mim, e então escutei de novo: Maria.

Depois de seis meses, recebi alta do tratamento e segui na letargia de um mundo preto e branco. Afastei-me dos amigos, passei a levar uma vida reclusa − casa-trabalho-psicólogo. Mãezinha ansiava pelo retorno da sua menina sorridente, e tudo o que eu desejava ver, eram seus olhos azulados de alegria.

Em mais um dia cor de chumbo, acordei com a gastrite a um passo da promoção para tornar-se úlcera. A acidez da raiva impulsionou-me a tomar uma atitude.

Detesto homem pegajoso, porém enfiei o orgulho goela abaixo junto com o café com leite na cafeteria do hospital. O gerente da administração hospitalar babava diante das minhas lamúrias saltando do peito na blusa decotada. Bem que tentei ceder aos seus cortejos, contudo a sua boca recheada de gengivas em caixa alta me dava asco.

Incrível como as paixões suplantam a ética. Ele investigou nos arquivos do hospital, cruzou informações. Havia na ficha a informação expressa da família para manter sigilo sobre os dados do doador. Não precisei de mais nenhuma confirmação. Era ela, Maria Eugênia.

Jurei ao amigo que não procuraria a família e de que sairíamos para uns drinques, no inferno, dada a ojeriza em fazer agradinhos naquele corpo humano. O grau elevado de autismo pela mulher dos sonhos, não permitiram dimensionar as prováveis consequências negativas ao amigo-carrapicho.

 

Mãezinha bufou, bateu o pé, esticou o beiço para eu não ir.

− Mãezinha, já sou mulher feita.

− Mulher nunca se faz.

− Tu tá falando dos homens.

− Também.

Ela insistiu para ir junto, neguei. O seu excesso de zelo atrapalharia a empreitada. Desobedeci as ordens médicas para não dirigir. A avenida estava apinhada de automóveis nervosos e pedestres idem. O semáforo amarelou. Parar ou seguir? Segui o fluxo com a embreagem tremendo e a testa ensopada de suor.

Cheguei à cidadezinha, distante 100 quilômetros da metrópole, antes das dez da manhã. O lugar tinha cara de cidade-clichê do interior: uma avenida principal, ladeada por uma praça, em frente à igreja guardadora de todos os segredos das bocas ociosas que circulam na praça.

Entrei no bar da esquina, pedi um café e puxei prosa com o senhor do balcão. Perguntei sobre Maria Eugênia, falecida de câncer no início do ano.

O homem disse não saber de nada, com cara de quem sabia. Retorceu o canto da boca, se entregou. Uma mulher sentada num canto do bar, mastigando um pastel dormido, acordou com a conversa.

− Cê tem modos de moça da capital – disse a mulher do pastel.

− Sou sim, senhora.

− Tá fazendo o quê nesse fim de mundo?

− Preciso saber da história de Maria.

A mulher e o vendedor sem sorrisos trocaram olhares espremidos, em preto e branco.

− Era a mulher do inspetor, o da polícia.

− Não te mete nisso ­– ordenou o homem do balcão à mulher com os dedos encharcados de óleo de soja.

Agradeci a informação e saí do boteco, decidida a encontrar a delegacia de polícia. A senhora do bar alcançou-me na calçada esburacada.

− Moça, vou te dar um conselho, esquece isso.

− Por quê?

− Não se mete com esse homem. É melhor deixar o passado no lugar dele, pra não assombrar a sua vida.

− Já tá assombrando.

Não foi preciso perguntar o endereço da delegacia, tinha uma placa incolor apontando ao final da rua, atrás da igreja. Segui a passos firmes ruminando a conversa com a mulher do bar.

O escrivão me atendeu e apontou a sala do inspetor. Bati na porta e entrei. Apresentei-me e disse ser a receptora da doação. O homem fechou a cara. Encarou o meu olhar com indiferença, como se nunca o tivesse visto. Segurei a lágrima que não era minha, era de Maria.

− Vim agradecer.

− Tá agradecido.

− O senhor tem a minha eterna gratidão.

− Não preciso disso não, moça. Maria é que deve estar agradecida. Vida ruim não precisa de olhos pra ver a morte. Já tá visto.

Senti uma punhalada no coração; cada vez mais, incorporava as dores de Maria.

− Vou processar o hospital, pedi pra não revelarem os dados do doador.

− O hospital não tem responsabilidade nenhuma. Talvez o senhor não acredite, mas…hu-hum…sonho com ela todos as noites, me disse em sonho o nome dela e onde morava. – Rezei para ele não perceber a face ruborizada, detesto mentir.

A indiferença do homem deu lugar ao mal-estar. Ele sentou, arqueou as sobrancelhas, enxugou o suor escorrido no rosto. Estendi a visão até o porta-retratos na mesa; vi o homem bronco abraçado numa mulher de dentes alvos esbanjando estrogênio. Tive certeza de que não era Maria.

− Quem é você? – perguntou o homem.

− Sou amiga de Maria.

− Ela não tinha amigos.

− Agora tem.

Fui embora da delegacia com a confirmação de que havia angu-de-caroço naquela história. Fiz o caminho de volta até o boteco. Bingo! A mulher do pastel continuava no mesmo lugar, era a esposa do dono.  O dono era o vendedor sem sorrisos.

Por sorte, ele havia saído. Insisti com a dona. A mulher me pegou pelo braço, puxou-me para um canto da cozinha, e disse para ir procurar o homem da cabana. Só isso. Tentei argumentar, perguntei onde ficava a cabana. Ela me disse “não te falei nada, vai”.

Segui em direção a outro comércio, tive a sensação de alguém estar me seguindo. Perguntei pela cabana, recebi caras e bocas de reprovação. Uma alma gentil me ensinou o caminho. Fui de carro, peguei a estradinha de chão batido, a mesma de acesso ao cemitério. Não rezava mais desde a cirurgia; no caminho, rezei por Maria. Encontrei a cabana encravada na encosta do morro. Bati palmas. Ninguém. Ondas de calafrio subiram pela espinha, ouvi barulhos no meio da mata.

A porta rangente se abriu. Um homem, de uns cinquenta e poucos anos, de testa vincada, apareceu na porta. Quando o vi, o coração bateu em solavancos; ele ficou ali parado me olhando, como se já me conhecesse. A voz empacou, a dele também. Ele desengasgou primeiro:

− Moça, vá embora, é perigoso estar comigo.

− Não vou embora enquanto o senhor não me contar a história de Maria.

− É pro jornal? Suma daqui, tô cansado de vocês.

− Recebi os olhos dela, preciso saber da vida e da morte dessa mulher.

Falei a palavra mágica, o semblante do homem cansado se desanuviou, convidou-me para entrar. A negligência dele para consigo mesmo estava exposta nas feridas abertas da sujeira espalhada na cabana. Nessas horas é melhor não enxergar as cores da tristeza.

− Por favor, fale logo, preciso ir embora ainda hoje − supliquei.

− Nós dois nos apaixonamos, esta cabana era o nosso paraíso. Não se assuste, naqueles tempos não era assim bagunçado. Um vendaval derrubou os nossos planos – disse o homem antes de fugir para algum lugar dentro dele.

− Senhor, continue…

Ele retomou o fôlego.

− O marido era um boçal, batia nela – falou enrugando ainda mais o rosto vincado – planejamos fugir, ele descobriu o nosso caso, no dia da fuga apareceu aqui armado. Discutimos, trocamos empurrões e depois não me lembro de mais nada. Quando acordei, estava no chão com um revólver na mão, o corno deitado, berrando de dor, com a perna ensanguentada. Maria estava em pé, olho vidrado, em estado de choque.

− Atirou nele?

− Vontade não faltava, não sei se peguei a arma dele na briga, acho que armaram pra mim. Nunca vou saber. A polícia me levou, fui condenado a quinze anos, sem direito à apelação, um absurdo, o desgraçado nem morreu.  Ela nunca me procurou, nenhuma visita, telefonema, podia ter mandado algum recado, nada. Ela viu se atirei ou não, podia testemunhar a meu favor, não fez nada. Acho que atirei mesmo, Maria deve ter me culpado porque estraguei tudo.

À medida que a narrativa avançava, o estômago embrulhava, sentia dificuldades de respirar, estava difícil manter a atenção, a tontura provocava náuseas.

− Quando saí da cadeia soube que estava muito doente, morreu no mês seguinte. Não me perdoei pela mágoa que sentia dela. Agora a visito todos os dias, mas o maldito mandou arrancar os seus olhos pra ela não me ver mais.

A vertigem veio do abdômen e subiu em cascatas até o alto da cabeça, massas de ar quente e frio se fundiram como um ciclone à minha volta, rodopiei nos pés sem sair do lugar e sem desmanchar um fio sequer do cabelo castanho-claro-chapado. Segurei firme na mão dele, falei num sussurro emocionado:

− João, eu te vejo ….

Ele olhou extasiado dentro dos meus olhos e viu, na íris esverdeada, o marido de Maria empurrá-lo contra a janela e um capanga do lado de fora dar uma coronhada na sua cabeça. Ele se viu desmaiado no chão enquanto o sujeito alcançava uma espingarda de chumbinho e uma bolsa de sangue para o patrão. Enxergou a surra de cinta em Maria, até o seu couro sangrar, e a ameaça de mandar matar o amante, caso ela abrisse o bico ou fosse visitá-lo na cadeia. Viu o corpo de Maria apodrecendo no leito do hospital, chamando por ele, enquanto os olhos resistiam à dor e a solidão.

João caiu de joelhos aos meus pés, libertou o pranto trancafiado no coração. Enlacei-o num abraço e de mim também verteu uma enxurrada de lágrimas, num misto de compaixão e perplexidade.

Recompomo-nos; sorrisos miúdos, gratidão, abraços. O cuidar de pessoas estava impresso no meu DNA, fazia parte do ofício na área da saúde, porém nada se comparava ao resgate da alma daquele homem. O que eu não sabia, era que também estava sendo resgatada.

Perguntei a João o que ele faria com a revelação. Ele me disse que nada, pois a lei estava sempre do lado dos mais fortes, e ter a sua Maria de volta, já lhe bastava. Apressei-me em sair dali, permanecia a sensação desagradável de alguém na mata.

Entrei no carro, engatei o caminho de volta, peguei-me assobiando uma canção. Na estrada, colhi flores, parei no cemitério, precisava cumprir a última etapa da jornada.

Não foi difícil encontrar a sua morada, o mármore ostentação denunciava a necessidade de remissão dos pecados do marido algoz. Reconheci os olhos opacos na foto amarelada. Chorei. Quanta dor naquele olhar.

Rezei baixinho: “Agora te vejo com os teus olhos para que você possa se ver”.

Neste instante, uma borboleta pousou no túmulo, sugou o néctar da florzinha, alçou voo, e então testemunhei o renascimento do inseto alado por meio da metamorfose de suas asas, de um insosso cinzento para um azul majestoso. Arregalei os olhos, gritei de emoção. Vi as letras douradas na lápide de Maria, e as flores multicoloridas, e a terra vermelha, e o céu azul claro se despedindo no poente. Eu vi as cores do mundo.

Sim, agora nós vemos. Descanse em paz, Maria.

 

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